Ouro Preto ganha reforço no ensino de arte com pesquisadora de atuação internacional no IFMG
Revista Mundaréu, 24 de maio de 2026
Denise Perdigão Pereira é doutora em Educação e em Educação Artística pela Universidade do Porto, e a presença da professora também fortalece a cena cultural de Ouro Preto.

A professora Denise Perdigão (Foto: Eduardo Trópia)
Ouro Preto sempre recebeu pesquisadores, artistas e intelectuais atraídos pela força histórica e cultural de seu patrimônio. Recentemente, porém, a cidade passou a contar com a presença constante e ativa da professora e pesquisadora Denise Perdigão Pereira, que integra o quadro de docentes do Instituto Federal de Minas Gerais Campus Ouro Preto e chega à instituição trazendo uma enorme bagagem moldada em arte, educação e experiências culturais desenvolvidas no Brasil, em Portugal e em países africanos de língua portuguesa.
Doutora em Educação e em Educação Artística pela Universidade do Porto, em parceria acadêmica com a Universidade Federal de Minas Gerais, Denise desenvolve pesquisas voltadas ao ensino de arte, à formação de professores e às relações entre escola, cultura e comunidade. Seus estudos ganharam destaque especialmente pelas experiências realizadas em Cabo Verde, país africano formado por ilhas no Oceano Atlântico, onde investigou práticas educativas ligadas à arte e à participação social.
No ensaio “Entre Brasil, Portugal e Cabo Verde: reflexões sobre os itinerários de uma pesquisa em Educação Artística”, a pesquisadora apresenta o caminho percorrido durante seu doutorado, centrado na análise da M_EIA – Mindelo Escola Internacional de Arte, localizada na ilha de São Vicente. O estudo mostra como a arte pode criar aproximações entre escola e comunidade, valorizando saberes locais e experiências coletivas.
Ao longo da pesquisa, Denise reuniu entrevistas com professores, estudantes, gestores e moradores das comunidades cabo-verdianas, além de documentos e registros das atividades desenvolvidas pela instituição. O trabalho também reflete sobre os desafios encontrados durante sua trajetória acadêmica e profissional, mostrando como as dificuldades e os imprevistos podem transformar o próprio processo de construção do conhecimento.
Sua trajetória inclui ainda passagens pela Universidade do Estado de Minas Gerais, onde trabalhou com disciplinas ligadas ao ensino de arte, pesquisa científica e formação docente. Sua produção acadêmica reúne estudos sobre currículo, ensino de arte, grafismo infantil e práticas educativas em diferentes contextos, além de pesquisas sobre cultura e expressões artísticas nos países africanos de língua portuguesa.
A professora do IFMG atua nos cursos integrados de Administração, Informática e Metalurgia, além do curso de Pedagogia. Para que estudantes, professores e leitores da cidade possam conhecê-la melhor, Denise Perdigão Pereira é a convidada da nova entrevista da Revista Mundaréu.

Denise, em visita ao Templo de Karnak, em Luxor, no Egito
Entrevista com Denise
REVISTA MUNDARÉU - Em um tempo marcado pelas tecnologias e pelas mudanças rápidas no cotidiano, qual você acredita ser o papel da arte na formação de crianças e jovens dentro da escola?
DENISE PERDIGÃO - O papel da arte na educação tem sido tema discutido por filósofos, desde a antiguidade clássica, como em Platão e Aristóteles. Na modernidade, educadores e filósofos como John Dewey, nos Estados Unidos, Franz Cizek, na Áustria, Herbert Head, no Reino Unido e Anísio Teixeira, Mário de Andrade, Aníbal Mattos e Cecília Meireles, no Brasil, deram ênfase à centralidade da arte na formação de crianças e jovens.
Apesar das contribuições de inestimável valor dadas por estes e outros filósofos, educadores e artistas para se pensar na importância da arte no processo formativo de crianças e jovens, os currículos das escolas, em geral, refletem uma concepção de formação humana restrita, na medida em que conferem um espaço reduzido a arte como forma de conhecimento. Assim, a importância de uma formação omnilateral, presente nos discursos das autoridades e gestores educacionais, infelizmente, não tem sido colocada em prática, ainda nos dias de hoje.
Por outro lado, a importância da arte na educação pode ser percebida em diversas dimensões da formação de crianças e jovens. O fazer artístico, um dos eixos centrais do ensino de arte, permite que a criança ou o jovem dê forma a um ampla gama de experiências sensoriais e de informações, recolhidas de seu meio, de modo a integrá-las às suas necessidades estéticas, naquele momento. Sobretudo no momento atual, em que percebemos um embotamento de nossa sensibilidade, decorrente do excesso de estímulos que recebemos do mundo à nossa volta, o fazer artístico deveria ocupar espaço chave na educação. O prazer passivo e imediato, proporcionado pelas telas, por ser tão sedutor, principalmente para os mais jovens, oferece consideráveis prejuízos para a formação de pessoas capazes de transformar a própria realidade. Como professora de arte percebo que o fazer artístico propicia enorme satisfação a crianças e jovens ao se sentirem capazes de criarem algo com o seu próprio corpo e intelecto.
Outro eixo orientador do ensino de arte refere-se à fruição e contextualização das obras de arte. Por meio do contato com expressões artísticas de diferentes povos e culturas, produzidas ao longo dos tempos, é possível acessar uma multiplicidade de concepções sobre o mundo, bem como partilharmos aquilo que nos une como seres humanos, ou seja, nossas dores, desejos, angústias, contradições e esperanças. Neste sentido, a arte enriquece tanto a nossa experiência subjetiva como a nossa experiência coletiva. Ela pode nos proporcionar maior flexibilidade para lidarmos com os nossos próprios dilemas e para acolher as diferentes formas de ser dos outros, na medida em que amplia nossos horizontes, nossa forma de pensar sobre o mundo.
REVISTA MUNDARÉU - Ao longo de sua trajetória, você sempre aproximou arte e educação. De que maneira essas experiências podem ajudar os jovens a desenvolver senso de responsabilidade, convivência coletiva e consciência cidadã?
DENISE PERDIGÃO - Há mais de nove anos, tenho trabalhado no IFMG com jovens do Ensino Médio Técnico Profissionalizante. Percebo que a arte tem ajudado muitos alunos a enfrentarem desafios cotidianos, incluindo os dilemas da escolha profissional. Vivemos em um mundo saturado de estímulos, informações e cobranças por desempenho em todos os aspectos de nossas vidas: acadêmico, profissional, físico e até mesmo afetivo. Este excesso de cobrança tem afetado a saúde mental dos jovens de maneira assustadora.
"O ensino de arte, dependendo do modo como é conduzido, pode contribuir para o questionamento desta busca incessante pela produtividade que tem invadido inclusive a nossa vida íntima. A arte pode proporcionar o aprofundamento do conhecimento de nós mesmos, de nossos dilemas e desejos mais profundos. Por meio do fazer artístico, o jovem desenvolve o seu potencial criativo, potencial este que pode ser expandido para várias esferas de sua vida."
No ano de 2019, me lembro de um aluno, muito inteligente, cursando o terceiro ano do Ensino Médio, ter dito que acreditava, antes, que arte era coisa de gente à toa e de como a visão dele havia mudado durante as nossas aulas. O curioso é que, justamente naquele dia, estávamos em um espaço extraescolar, em um momento de confraternização e de grande descontração. O rapaz havia entendido que podemos experimentar o tempo de uma forma mais desacelerada, sem tantas pressões, que podemos romper com esta lógica, preponderante no meio escolar, de que só faço algo para receber uma nota/pontuação em troca. Em outras palavras, ele havia aprimorado a sua sensibilidade para perceber que a qualidade das experiências que temos, no nosso dia a dia, pode nos aproximar mais de nós mesmos e do outro. Este mesmo rapaz, passou a integrar um projeto de ensino que eu coordenava na época, voltado para o desenho. E não tendo muita afinidade com o desenho, descobriu, por outro lado, um forte interesse pela fotografia, por meio do contato com uma câmera fotográfica profissional que um colega, também integrante do projeto de ensino, sempre levava para a escola.
Especificamente sobre as escolhas profissionais, por meio das aulas de arte, vários alunos consolidam o desejo, muitas vezes hesitante, de fazer um curso superior na área de arte ou em áreas afins. Tenho ex-alunos que cursaram ou estão cursando Artes Visuais, Design de Modas, Cinema, Artes Cênicas e Jogos Digitais em Universidades como a UFOP, UFMG, USP, UNICAMP, PUC MINAS e até no IF Sudeste Muriaé. Outros alunos, preferem seguir carreira nas áreas de Ciências Exatas, Biológicas e Humanas e ter a arte como um hobby, escolha que também acolho e incentivo. O importante é que os jovens levem uma bagagem mais ampla e rica sobre a experiência humana, sobre a nossa capacidade imaginativa e inventiva, não só para o futuro exercício da profissão, mas para a vida como um todo.
REVISTA MUNDARÉU - Em sua visão, de que forma a relação entre escola e comunidade fortalece o processo de ensino e aprendizagem? Qual é o papel desse diálogo?
DENISE PERDIGÃO - A aproximação entre escola e comunidade permite o desenvolvimento de uma educação pautada no diálogo e na problematização da realidade social, conforme defendido por Paulo Freire. A adoção de tal perspectiva é, mais do que nunca, necessária para o enfrentamento dos desafios que se colocam para a educação do século XXI, já que o modelo tradicional de ensino, no qual o professor atua como mero transmissor de conhecimentos, não se sustenta mais. O fácil acesso à informação, por meio da internet, desloca o papel da escola de detentora do conhecimento para uma mediadora crítica que deve auxiliar os estudantes, dentre outras coisas, a buscar, filtrar e transformar dados em conhecimento.
Para que este conhecimento tenha um significado mais amplo para a vida do aluno é necessário que se promova uma aproximação entre o currículo escolar e a realidade social. Deste modo, a cultura, os saberes e os problemas que afetam a comunidade devem estar presentes de forma viva no meio escolar, orientando a seleção de conteúdos, a promoção de debates e o desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão.
Mas para que este trabalho aconteça de maneira significativa e respeitosa é preciso que educadores e pesquisadores tenham sensibilidade para construir um diálogo verdadeiro com a comunidade, em vez de imporem, com as melhores das intenções, muitas vezes, a sua própria perspectiva sobre a realidade social. Paulo Freire alertava, nesse sentido, que o próprio conceito de ‘Extensão’, em sua acepção tradicional, está ligado a práticas de ‘invasão cultural’, traduzindo-se em uma visão colonizadora e instrumental da educação. Na perspectiva da ‘Comunicação’, por outro lado, educador e educando aprendem juntos, transformando o processo educativo em um processo humanista e democrático.
REVISTA MUNDARÉU - Como enxerga Ouro Preto dentro desse cenário internacional de patrimônio histórico e artístico? E como tem sido, para você, viver e atuar profissionalmente na cidade?
DENISE PERDIGÃO - A cidade de Ouro Preto representa precioso valor histórico e artístico para os cenários nacional e internacional. Como profissional da arte, destaco a originalidade do barroco aqui desenvolvido, aspecto que tem sido apontado por diversos especialistas da área. Isto porque a adaptação das técnicas europeias a sensibilidade luso-afro-brasileira e o uso de matérias-primas locais, como a pedra sabão, resultaram na criação de um estilo único na história da arte.
Além disso, o traçado urbano espontâneo de Ouro Preto, diferente de cidades de colonização espanhola, como o centro histórico da Cidade do México ou de Cusco, com traçados em tabuleiro de xadrez, confere à cidade ouro-pretana uma paisagem única com seus telhados enfileirados observados de cima, ruas extremamente íngremes, ladeiras sinuosas, becos estreitos, e suas vistas surpreendentes.
"Viver e atuar profissionalmente em Ouro Preto se conecta, de diversas formas, à minha necessidade de explorar as matizes culturais que formam a arte brasileira, especialmente a arte mineira."
Entre os anos de 2014 e 2016, época em que realizei o doutorado, experimentei viver entre Brasil, na cidade de Belo Horizonte, Portugal, na cidade do Porto e Cabo Verde, nas ilhas de São Vicente e Santo Antão. A experiência me proporcionou, não apenas aprofundar meus estudos no campo do ensino de arte, mas também vivenciar, em alguma medida, as complexas e desafiadoras relações de trocas e tensões culturais entre as matrizes brasileira, portuguesa e africana. Esse foi um processo que me exigiu muito, sob diversos aspectos, mas que, além disso, me trouxe grandes e ricos aprendizados.
No final do ano de 2022, quando optei por deixar a cidade de Ouro Branco, senti que viver em Ouro Preto seria uma oportunidade de completar o ciclo de encontros, iniciado nos anos de 2014, 2015 e 2016, com vários elementos históricos e culturais que contribuíram para o desenvolvimento de nossas expressões artísticas mais valiosas.
A cidade de Ouro Preto pulsa arte e cultura para além de seu riquíssimo patrimônio material, algo que me encanta. Acho belo e divertido, por exemplo, acompanhar os cortejos dos Zé-Pereiras e perceber a fusão de elementos africanos e portugueses em uma manifestação cultural tão antiga, mas ao mesmo tempo, viva nos dias de hoje. Este tipo de experiência, proporcionada pela Cidade de Ouro Preto, nesta e em tantas outras manifestações culturais que acontecem ao longo de todo o ano, me transporta para a história de nossos antepassados. Nestas ocasiões, fico a imaginar as injustiças, as lutas e as conquistas, pelas quais passaram. Vejo estas histórias a atravessarem os portais do tempo e ecoarem entre nós, por meio das danças, dos sons, dos rostos suados, nos esforços de subir as ladeiras... Muitas vezes, noto a presença de meus alunos entre membros de uma banda de música, na exibição de alguma dança contemporânea pelas ruas ou simplesmente na torcida pela sua escola de samba no carnaval. Essas experiências me enriquecem como educadora e como profissional da arte pela forma orgânica como se dão em minha vida em Ouro Preto e por me fazerem celebrar, em meu íntimo, a beleza da diversidade.
Poderia citar inúmeras experiências que me fazem acreditar que Ouro Preto é uma das cidades mais especiais que já conheci. Mas, para finalizar, como ex-aluna e ex-professora da Escola Guignard, da UEMG, gostaria de registrar meu contentamento por viver na mesma cidade escolhida pelo artista Alberto da Veiga Guignard para morar durante importantes anos da vida dele. Gosto de contemplar a paisagem envolta pela neblina, o pico do Itacolomi, as serras, as ladeiras, os casarios e seus telhados, as igrejas com suas torres sineiras. Imagino o encantamento de Guignard a admirar cidade tão pitoresca, encantamento este que nos legou obras de arte que expressam com primor a alma de Ouro Preto.
REVISTA MUNDARÉU - Em julho de 2026, Ouro Preto completa 315 anos. Embora seja uma cidade relativamente jovem quando comparada a lugares como Cairo, com mais de mil anos de história, Barcelona, fundada na Antiguidade, ou Cusco, antiga capital do Império Inca, Ouro Preto possui um dos mais importantes conjuntos históricos do Brasil. Depois de conhecer diferentes patrimônios culturais pelo mundo, como você avalia os desafios da preservação dos bens culturais em Ouro Preto e no Brasil atualmente?
DENISE PERDIGÃO - Uma das formas mais importantes de preservação do patrimônio cultural é o tombamento, pois ele permite a proteção dos bens, pelo poder público, para que não sejam destruídos ou modificados. Muitos municípios brasileiros, entretanto, não dispõem de equipes técnicas capacitadas ou normas regulamentares que possibilitem a implementação da legislação de proteção ao patrimônio cultural.
"Outro desafio para a preservação de bens culturais no Brasil, refere-se às limitações financeiras e orçamentárias, destinadas ao IPHAN, afetando a fiscalização, a conservação de acervos e a prevenção de desastres como o trágico incêndio ocorrido no Museu Nacional do Rio de Janeiro, no ano de 2018, ou o deslizamento do Morro da Forca, em Ouro Preto, no ano de 2022. Os dois desastres resultaram, em diferentes proporções, em perdas irreparáveis para o Patrimônio Histórico e Cultural Nacional."
Cabe aqui ressaltar também que o excesso de burocracia, com seus longos processos de tombamento ou liberação de obras de restauro, cria entraves para uma ação rápida e preventiva.
Em Ouro Preto, a estes desafios, somam-se algumas particularidades da cidade ligadas à sua topografia, tais como a constante ameaça à estabilidade das encostas ou o conflito entre a estrutura viária do século XVII e o fluxo intenso de veículos, nos dias de hoje. Os riscos de incêndio em edificações antigas também colocam a necessidade de técnicas modernas de prevenção de fogo, bem como o monitoramento contínuo. Novamente, nos deparamos com desafios orçamentários importantes.
"Ao pensarmos na realidade nacional, outro ponto de reflexão relevante sobre nosso patrimônio cultural refere-se a necessidade de revisão das políticas de preservação, historicamente centradas na arquitetura de matriz europeia."
Percebo, neste sentido, que estamos muito atrás de outros países latinos como o Peru e, sobretudo, o México que têm investido grandes esforços na preservação e valorização da arte pré-colombiana. Assim, a ampliação da valorização dos bens culturais materiais e imateriais das matrizes indígenas e afro-brasileiras deve ser uma medida urgente em nosso país.
Por fim, como profissional do campo do ensino de arte, saliento que estes desafios só poderão ser superados a partir de uma Educação Patrimonial voltada para o desenvolvimento da responsabilidade social, da consciência de que os bens culturais não pertencem apenas ao Estado ou às elites, mas as comunidades como um todo. É preciso que a população esteja implicada nas reivindicações junto ao Poder Público para a aplicação das leis de proteção aos bens culturais e para a correta destinação de verbas ao setor. A Educação Patrimonial é um importante instrumento para o reconhecimento e valorização de nossa história e de nossos antepassados.

_edited_edited.jpg)