top of page

Cinema

O Agente Secreto: um olhar sobre a ditadura e sobre o Brasil para além da “história oficial”

Revista Mundaréu, 23 de janeiro de 2026

Leandro Andrade.avif

Por Leandro Andrade (ouro-pretano, cinéfilo, geógrafo, historiador, mestre em Ensino de Geografia e colaborador da Revista Mundaréu)

O Agente Secreto não é um filme que aborda a Ditadura Militar (importante não assistir ao filme com a expectativa de encontrar algo similar a Ainda Estou Aqui ou O que é isso, companheiro?) da forma convencional ou esperada pelo público.


É sobre a Ditadura Militar, sim, mas aborda uma dimensão da ditadura geralmente ignorada ou menosprezada pelos filmes que tratam do período, que é sua faceta empresarial, isto é, o apoio dado aos militares por grandes empresários e a participação destes na repressão e perseguição aos opositores, inclusive impondo seus interesses pessoais e financeiros e promovendo retrocessos ao desenvolvimento nacional em várias áreas.


Para além disso, O Agente Secreto é um filme que usa esse pano de fundo para discutir a relação entre a produção científica nos espaços acadêmicos, Estado e capital; sobre memória, esquecimento e a importância do registro e da conservação de acervos; sobre trauma geracional e a necessidade de quebrar ciclos de violência, em vez de repeti-los; que se passa durante o contexto de opressão, perseguição e repressão da ditadura militar no Brasil.


O filme também problematiza os estereótipos criados pelo Sul/Sudeste em relação ao Norte/Nordeste, postulando que essas regiões, assim como todo o país, possuem contradições que têm sua raiz nas heranças coloniais, mas são capazes de produzir ciência e cultura. Já o entrecho sobre a “perna peluda” é uma forma de ironizar a maneira como a imprensa tradicional, muitas vezes aliada do regime, noticiava os casos de desaparecidos políticos (muitos deles eram jogados em alto-mar por helicópteros e, quando não viravam comida de peixe, vinham parar nas praias).

Nesse ponto, o filme critica a noção segundo a qual tudo o que tem a ver com Sul/Sudeste seria expressão da identidade nacional, enquanto o que é relativo ao Norte/Nordeste seria “regionalismo” (algo também explorado em Bacurau).


E, além de abordar todos esses assuntos, o filme ainda resvala em outros, como a extinção de muitos cinemas de rua (aqui o filme dialoga diretamente com o documentário Retratos Fantasmas, também de Kleber Mendonça Filho), as relações de servidão e abuso dentro das famílias aristocráticas, exemplificadas pela história da mãe do protagonista (o que dialoga com o filme O Som ao Redor, primeiro longa do diretor); o lugar, seja a casa, a comunidade, a cidade, como espaço de pertencimento e resistência (algo já abordado pelo diretor em Aquarius e Bacurau); a corrupção policial e a ligação dela com grupos de extermínio e milícias, etc.


Ao final, o sentido do título do filme ganha em polissemia, pois o tal “agente secreto” (aquele que age em segredo) pode se referir a uma infinidade de elementos: pode ser simplesmente o personagem de Wagner Moura, que se infiltra numa repartição de identificação pública para tentar recuperar a memória da mãe; pode ser a burguesia, atuando secretamente dentro das entranhas de um regime autoritário, para fazer com que seus interesses prevaleçam; pode ser o esquecimento, agindo para que a memória dos tempos sombrios seja apagada, permitindo que esses tempos possam se repetir… cabe ao espectador refletir e decidir.


As 4 indicações obtidas por O Agente Secreto no Oscar 2026 (Melhor Filme, Melhor Ator – Wagner Moura, Melhor Escalação de Elenco e Melhor Filme Internacional) vêm para coroar um trabalho ousado e original de Kleber Mendonça Filho. Com isso, ele supera Ainda Estou Aqui em número de indicações e empata com Cidade de Deus, que em 2004 também teve 4 indicações: Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem. Esse resultado mostra que o cinema brasileiro cresce em apreço internacional, abrindo caminho para novos cineastas e novos filmes, e atraindo parcerias e investimentos estrangeiros.


A título de comparação — e aproveitando o clima de Copa do Mundo que a presença de filmes brasileiros no Oscar em 2025 e 2026 tem gerado —, este ano o Brasil tem a chance de superar de vez a Argentina (adversária histórica no futebol) no Oscar. Até o momento, 2 filmes argentinos foram premiados com o Oscar de Melhor Filme Internacional (que antes se chamava Melhor Filme Estrangeiro). São eles A História Oficial, de Luis Puenzo, premiado em 1986; e O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, premiado em 2010. Ambos se passam durante a Ditadura Militar argentina.


Porém, a Argentina nunca teve um filme seu indicado na categoria de Melhor Filme (o Brasil já teve Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto), ou um intérprete seu indicado nas categorias de Melhor Atriz ou Melhor Ator principais (o Brasil já teve Fernanda Montenegro, Fernanda Torres e agora Wagner Moura), apesar de a atriz argentina Norma Aleandro (protagonista de A História Oficial) ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante em 1988 pelo filme Gaby: Uma História Verdadeira (Gaby: A True Story, 1987). Todavia, apenas um filme brasileiro ganhou um Oscar: Ainda Estou Aqui, premiado como Melhor Filme Internacional no ano passado. Se o feito se repetir, o Brasil empata com a Argentina no número de vitórias, já tendo-a ultrapassado no número de indicações. Vamos torcer por isso!

bottom of page