Do ferro dos meteoritos às montanhas de Minas
Gerais
Um mergulho alquímico nas terras de Minas sob o olhar do professor Luiz Claudio de Almeida Barbosa, da UFMG
Revista Mundaréu, 4 de maio de 2026

Minas Gerais foi forjada no ferro. O elemento, fortemente presente nas entranhas de suas serras, molda as paisagens desde o período colonial. Em Minas, a mineração imprime marcas profundas no território e na identidade de seu povo. É a partir desse cenário que o professor Luiz Claudio de Almeida Barbosa, titular do Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desenvolve a narrativa em seu texto Do ferro dos meteoritos às montanhas de Minas Gerais.
No texto, o autor percorre a milenar história do metal, conectando tempos distintos. Da antiguidade dos meteoritos às formas contemporâneas de extração, observa o que permanece e o que se transforma sob o impacto da mineração.
Segundo ele, a inspiração para escrever o artigo surgiu durante a preparação de uma aula de História da Química sobre técnicas antigas, desenvolvidas antes da consolidação da disciplina.
Sobre o professor
Com uma vida dedicada ao ensino e à investigação científica, Luiz Cláudio é professor titular da UFMG desde 2012, tendo chefiado o Departamento de Química entre 2022 e 2023. Graduado e mestre pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com doutorado pela Universidade de Reading e pós-doutorado em Oxford, sua atuação atravessa fronteiras acadêmicas nacionais e internacionais. Foi responsável pela criação do Laboratório de Análise e Síntese de Agroquímicos (LASA) e pela implantação da linha de pesquisa em síntese orgânica na UFV, onde foi docente por trinta anos.
Pesquisador de produtividade do CNPq, Luiz Cláudio soma mais de 300 artigos publicados e a orientação de dezenas de mestres e doutores. Suas obras didáticas são referência em universidades no Brasil e no exterior. Contudo, sua sensibilidade não se restringe aos laboratórios: o cientista também é músico, tendo atuado como clarinetista do Conjunto de Sopros da UFV. Atualmente, mantém uma coluna no jornal Folha da Mata (Viçosa) e outra no O Norte (Montes Claros).
Entrevista exclusiva
Mundaréu - A partir da história do ferro na humanidade, como podemos entender melhor o mundo em que vivemos hoje?
Prof. Luiz Claudio - A história do ferro nos obriga a repensar uma ideia confortável: a de que técnica e natureza são esferas separadas. Durante a maior parte da história humana, o ferro era escasso. Raramente encontrado puro e difícil de extrair, exigia conhecimento acumulado para transformar óxidos em metal útil. Essa escassez impunha limites: a velocidade de extração, a escala de produção e o alcance das transformações territoriais. A natureza, nesse sentido, ditava o ritmo. O que mudou não foi apenas a técnica, mas a relação com o limite. Hoje, a siderurgia global produz cerca de 2 bilhões de toneladas de aço por ano, o que contribui com quase 10% das emissões mundiais de dióxido de carbono, segundo estimativas de organismos internacionais como a Agência Internacional de Energia. O minério extraído em larga escala sustenta desde a construção de arranha-céus, que se multiplicam em velocidade frenética, até equipamentos industriais, agrícolas e cadeias de suprimento militares. O ferro deixou de ser um gargalo para se tornar um acelerador. Quanto mais extraímos, mais infraestrutura exigimos; quanto mais infraestrutura, mais ferro. É um ciclo de reforço mútuo que transforma a geografia planetária em ritmo cada vez mais acelerado. Entender essa história é perceber que vivemos em um mundo onde a escassez foi, em grande medida, vencida, mas em que sua superação criou outro problema: a dificuldade de reconhecer novos limites. A questão já não é se conseguimos transformar a natureza, mas até quando essa transformação pode continuar sem comprometer as condições de existência que ela própria sustenta. O ferro, nesse sentido, é um termômetro. Sua trajetória, de objeto raro a commodity globalizada, mede não apenas o progresso técnico, mas também nossa capacidade, ou incapacidade, de regular o próprio poder.
Mundaréu - Minas Gerais se formou a partir dos metais, primeiro o ouro, depois o ferro. O que as marcas da mineração no estado mostram sobre essa história?
Prof. Luiz Claudio - As encostas recortadas, as cavas abertas, as cidades que cresceram ao redor do que extraem do subsolo: em Minas Gerais, a história não está apenas nos livros e nas nossas tradições, mas inscrita na paisagem. No século XVIII, a exploração do ouro, baseada em trabalho escravizado e técnicas rudimentares, moldou a ocupação do território e deu origem a centros urbanos como Ouro Preto, que chegou a figurar entre os mais populosos da América portuguesa. A partir do século XX, o eixo da mineração deslocou-se para o ferro, especialmente no Quadrilátero Ferrífero, uma das principais regiões minerais do mundo. Hoje, Minas Gerais responde pela maior parte da produção brasileira de minério de ferro, e municípios como Itabira e Mariana têm sua trajetória diretamente ligada a essa atividade. As marcas deixadas por esses diferentes ciclos revelam, ao mesmo tempo, mudanças e permanências. Mudou a escala, a tecnologia e a organização do trabalho; ampliaram-se enormemente os volumes extraídos e a capacidade de transformação do território. Mas permanece o papel central da extração mineral como motor econômico e elemento estruturador do espaço. A paisagem atual, repleta de cavas, pilhas de estéril e barragens de rejeitos, é resultado direto dessa longa história de intervenção sobre o meio físico. O território mineiro pode, assim, ser lido como um arquivo visível dessas transformações. Ele registra não apenas a geração de riqueza e a formação de cidades, mas também os impactos acumulados de sucessivos ciclos de exploração. As marcas da mineração mostram, portanto, uma história de continuidade econômica combinada a mudanças técnicas profundas. Isso coloca em evidência o desafio de conciliar o aproveitamento de recursos naturais com a preservação das condições ambientais e sociais que sustentam a vida no estado.
Mundaréu - A mineração acompanha Minas desde o período colonial e é importante para a economia. O que essa dependência pode significar para o futuro?
Prof. Luiz Claudio - As cidades que mencionei anteriormente, como Itabira, Mariana e Ouro Preto, e tantas outras, não cresceram apenas ao redor do que extraíam. Cresceram por causa do que extraíam. E, em grande medida, continuam a se desenvolver assim. A mineração representa cerca de 4% do PIB brasileiro, mas, em Minas Gerais, esse valor pode superar 10%, dependendo do ano e do desempenho do setor. Em termos de exportação, o minério de ferro responde por aproximadamente metade do valor das exportações minerais do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), e por uma fração ainda maior em volume, o que evidencia a forte influência dos preços internacionais sobre a receita gerada. Esses números se traduzem em empregos, arrecadação e financiamento de serviços públicos, além de sustentar uma ampla cadeia produtiva. Mas também revelam algo menos visível: a dificuldade de imaginar o estado sem a mineração, e essa dificuldade é, em si, uma forma de dependência. Na última década, o preço do minério de ferro oscilou aproximadamente entre US$40 e mais de US$200 por tonelada. Quando os preços sobem, há expansão econômica, aumento da arrecadação e dinamização local; quando caem, o movimento se inverte. Em muitos casos, regiões mineradoras apresentam baixa diversificação econômica, o que as torna mais vulneráveis a essas oscilações. Isso significa que nem sempre há alternativas consolidadas capazes de sustentar a economia local em momentos de retração. Essa lógica extrativa, que no passado moldou a ocupação do território, continua a influenciar as possibilidades do futuro. Mas há uma diferença: o que antes eram escavações de pequena escala, hoje envolve operações industriais de grande porte, com impactos muito mais amplos e riscos associados a estruturas complexas, como barragens de rejeitos. A dependência que gerou cidades também gerou passivos ambientais e riscos que precisam ser continuamente geridos. E, quando esses riscos se materializam em tragédias como as de Mariana e Brumadinho, a vulnerabilidade deixa de ser apenas econômica: atinge diretamente as populações que vivem a jusante dessas estruturas. O desafio, portanto, não é apenas diversificar a economia. É perguntar se Minas Gerais consegue conceber de si mesma uma imagem que não passe pelo buraco no chão. Porque continuar expandindo a extração sem considerar seus limites não é destino: é escolha. E escolhas, ao contrário de minérios, não têm cotação no mercado internacional.
Mundaréu - Os desastres de Mariana e Brumadinho ainda marcam o país. O que eles nos fazem refletir sobre a mineração no Brasil?
Prof. Luiz Claudio - O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (2015), liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos e causou 19 mortes. Em Brumadinho (2019), foram aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos e 270 vítimas fatais. Esses números dão a dimensão imediata da tragédia, mas não esgotam seu significado. Os efeitos desses eventos se estendem no tempo. Anos depois, comunidades ainda enfrentam dificuldades no processo de reparação, ecossistemas seguem impactados e disputas judiciais permanecem em andamento. Mariana e Brumadinho não foram episódios pontuais, mas acontecimentos cujas consequências continuam a se desdobrar. Ao contrário da mineração colonial, em que os impactos se distribuíam de forma mais difusa ao longo do tempo, a mineração contemporânea concentra riscos em estruturas técnicas de grande escala. As barragens de rejeitos são parte integrante desse modelo. Quando funcionam, tornam pouco visível o custo ambiental da produção; quando falham, tornam esse custo abruptamente evidente e devastador. É nesses momentos que nos damos conta da dimensão dos danos que a mineração pode causar. O Brasil possui centenas de barragens de rejeitos cadastradas, algumas classificadas como de alto risco, o que indica a necessidade de vigilância contínua. Os eventos de Mariana e Brumadinho não foram apenas acidentes isolados, mas também expuseram fragilidades na fiscalização, na gestão de riscos e na governança do setor. Ao mesmo tempo, evidenciaram um problema mais amplo: a dificuldade de compatibilizar a intensidade da exploração mineral com a segurança das populações e a integridade dos ecossistemas. Desde então, houve mudanças importantes, como a proibição de novas barragens construídas pelo método a montante e o reforço de exigências regulatórias. Ainda assim, permanecem estruturas que demandam monitoramento constante. O risco não desaparece porque não está apenas na técnica, mas também na escala e na lógica do modelo produtivo
Mundaréu - Que mudanças você considera importantes na forma de explorar o minério no futuro?
Prof. Luiz Claudio - Penso que a principal mudança é reconhecer que segurança não é um atributo automático da tecnologia, mas uma condição que precisa ser continuamente construída, monitorada e financiada. Isso implica fortalecer a fiscalização, ampliar a transparência dos dados e garantir que estruturas de risco sejam acompanhadas com rigor permanente. Considero que o desafio vai além da gestão técnica. Ele envolve também a forma como as decisões são tomadas. A exploração mineral não pode ser definida apenas em gabinetes ou negociada entre gestores públicos e empresas interessadas. Trata-se de uma atividade que afeta territórios, comunidades e modos de vida, e, por isso, a sociedade precisa ser efetivamente ouvida. Incorporar a participação das populações atingidas nos processos decisórios não é apenas uma questão de legitimidade, mas uma forma concreta de reduzir riscos e conflitos. Há também uma dimensão econômica importante. Regiões fortemente dependentes da mineração precisam ampliar suas alternativas produtivas, de modo a reduzir a vulnerabilidade associada às oscilações do mercado e à exaustão dos recursos. Diversificar não é apenas uma estratégia econômica, mas uma forma de aumentar a resiliência social. No fundo, trata-se de reequilibrar a relação entre produção e limite. A mineração continuará sendo uma atividade essencial, mas sua expansão não pode ocorrer sem considerar os custos que ela impõe. Tornar esses custos visíveis e incorporá-los de forma mais justa às decisões é parte central desse processo. Penso que o futuro da mineração depende, portanto, menos de uma solução única e mais da capacidade de integrar tecnologia, regulação, planejamento e participação social em uma visão de longo prazo. Não se trata de interromper a atividade, mas de redefinir as condições sob as quais ela ocorre. Por fim, é importante lembrar que os recursos naturais do planeta, como o ferro e outros minerais, são finitos. Isso torna essencial ampliar a reciclagem dos materiais que consumimos e refletir sobre os padrões de consumo que sustentam a demanda por extração. Encontrar esse equilíbrio será decisivo para a construção de um futuro ambientalmente mais sustentável.

Do ferro dos meteoritos às montanhas de Minas Gerais
Da raridade sagrada no Egito Antigo à base da economia mineira, o ferro revela uma trajetória de avanços técnicos e desafios ambientais
Por Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
Quem percorre as estradas de Minas Gerais dificilmente deixa de notar as marcas profundas deixadas pela mineração: montanhas recortadas, encostas expostas, paisagens que se alteram rapidamente diante dos olhos. Em alguns casos, essas mudanças não são apenas visuais, mas trágicas. Os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho custaram muitas vidas e deixaram cicatrizes duradouras no território e na memória do país. Ainda assim, a relação entre o ferro, a riqueza e seus custos acompanha a própria história da humanidade.
O ferro está presente na trajetória humana há milênios. Diferentemente de metais como o ouro, raramente é encontrado em estado puro, pois se oxida com facilidade, formando minerais como hematita (Fe₂O₃) e magnetita (Fe₃O₄). Ainda assim, alguns dos primeiros objetos de ferro conhecidos datam de cerca de 2.900–2.500 a.C., no Egito Antigo. Um dos exemplos mais fascinantes é a adaga do faraó Tutancâmon, descoberta em seu túmulo no Vale dos Reis.
Essa adaga, com lâmina de ferro e cabo ornamentado em ouro, intrigou cientistas por décadas. Mesmo após mais de três mil anos, o metal não apresentava sinais significativos de corrosão. Análises modernas revelaram que o ferro da lâmina contém cerca de 10% de níquel e traços de cobalto — uma composição típica de meteoritos. Essa resistência à corrosão lembra, em certa medida, o comportamento dos aços inoxidáveis modernos, nos quais elementos como o cromo — e também o níquel — favorecem a formação de uma fina camada protetora de óxido na superfície, capaz de se reconstituir quando danificada e retardar a oxidação. Isso indica que, antes do domínio da metalurgia do ferro, os seres humanos já utilizavam material de origem extraterrestre, provavelmente raro e associado ao divino.
Se no passado o ferro era raro e quase sagrado, hoje ele sustenta uma das atividades econômicas mais importantes do Brasil. Em Minas Gerais, o minério de ferro é o principal produto da pauta de exportação e base de uma cadeia que movimenta a economia e gera milhares de empregos. Essa riqueza concentra-se especialmente no Quadrilátero Ferrífero, que abrange municípios como Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana e Itabira.
A verdadeira revolução do ferro ocorreu entre 1.200 e 1.000 a.C., com o início da chamada Idade do Ferro. Povos do Oriente Médio desenvolveram técnicas para reduzir os óxidos em fornos primitivos, produzindo um metal mais resistente e abundante que o bronze. Isso transformou profundamente as sociedades: ferramentas agrícolas tornaram-se mais eficientes, armas mais duráveis e o ferro passou a sustentar a expansão de impérios.
Ao longo dos séculos, a metalurgia evoluiu significativamente. Na Antiguidade, gregos e romanos aperfeiçoaram técnicas de forjamento. Na Idade Média, surgiram os altos-fornos, ampliando a produção. Já na Revolução Industrial, o ferro — e posteriormente o aço — tornou-se a base da modernidade, sustentando ferrovias, pontes, edifícios e máquinas. O desenvolvimento de processos como o de Bessemer, no século XIX, permitiu a produção em larga escala, transformando a economia global.
No Brasil, a exploração do ferro ganhou destaque a partir do século XX, acompanhando a industrialização e a demanda mundial. Minas Gerais consolidou-se como um dos principais polos mineradores do planeta. Essa atividade impulsionou o crescimento econômico, mas também trouxe desafios significativos.
O avanço na extração e no processamento do minério também gerou passivos ambientais relevantes: desmatamento, alteração de paisagens, contaminação de águas e riscos associados a barragens de rejeitos — lama residual do beneficiamento do minério, uma mistura de partículas finas e minerais que precisa ser armazenada com segurança.
Os desastres de Mariana e Brumadinho mostram como falhas na gestão e na fiscalização podem resultar em tragédias humanas e ambientais de grande impacto. Esses eventos evidenciam que, apesar dos avanços tecnológicos, ainda existem fragilidades importantes na forma como exploramos os recursos naturais.
A história do ferro é, portanto, também a história da própria civilização, de suas conquistas e de suas contradições. Desde o uso de fragmentos de meteoritos até a mineração em larga escala, o ferro foi essencial para o desenvolvimento tecnológico e social, mas essa trajetória também revela seus custos ambientais e humanos.
Nos últimos quinze anos, tenho viajado quase semanalmente entre Belo Horizonte e Viçosa, e o que observo é a rapidez com que a paisagem se transforma. Algumas montanhas literalmente desapareceram, e cresce a sensação de que Minas Gerais, ao menos em certas regiões, caminha para se tornar uma terra cada vez mais plana.
Após milênios de aperfeiçoamento técnico, da redução de óxidos em fornos primitivos ao convertedor Bessemer, o desafio contemporâneo já não é apenas extrair, mas reconfigurar: reconfigurar a engenharia de rejeitos para reduzir riscos, reconfigurar a fiscalização para que a prevenção não dependa de tragédias e reconfigurar uma lógica que frequentemente externaliza custos humanos e ambientais. A continuar nesse ritmo, as montanhas de Minas poderão existir apenas na memória. Desde Tutancâmon, o ferro molda civilizações; cabe-nos decidir se continuará a moldá-las, ou se aprenderemos, enfim, a moldá-lo com responsabilidade.


