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Festa do Reinado - Ouro Preto abre seu calendário cultural com a festa que canta, dança e emociona

Revista Mundaréu, 3 de janeiro de 2025

Foto: Patrick Araujo - Ascom PMOP

“Mas por mais que me naveguem,
Me levando pelos mares,
A memória vem e guarda
A memória vem e salva”

Fernando Brant e Milton Nascimento

O Reinado de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, Santo Antônio e São Benedito, também conhecido como “A Fé que Canta e Dança”, volta a ocupar as ruas e ladeiras de Ouro Preto como uma das mais importantes celebrações da cultura popular e da religiosidade afro-brasileira em Minas Gerais. Reconhecida como patrimônio cultural imaterial do município em 2019 e reconhecida, em junho de 2025, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iepha e IPHAN, a Festa do Reinado reafirma a força da memória, da resistência negra, da devoção e da organização comunitária que atravessa gerações, reunindo fé, devoção, canto, música e dança em diálogo direto com a história ancestral da cidade.

Ao longo da programação, guardas de Congo, Marujos, Caboclos, Catupes e Moçambiques, vindas de diferentes regiões do Brasil, conduzem cortejos marcados pelo som dos tambores, pelos cantos tradicionais e pelos trajes que carregam símbolos de ancestralidade e resistência afro-indígena. As celebrações religiosas, especialmente na Matriz de Santa Efigênia, se articulam aos encontros culturais e aos momentos de convivência coletiva, transformando o espaço urbano em território de partilha, reverência e expressão cultural.

Moradores e visitantes são convidados a vivenciar a Festa do Reinado não apenas como espectadores, mas como parte de uma experiência que se manifesta em sons e movimento, uma tradição que mistura elementos da fé católica com crenças e rituais que mantêm viva a memória de reis e rainhas africanos, como Chico Rei. É a coexistência religiosa mantendo vivos saberes, fazeres, lugares e celebrações que cruzaram o Atlântico com a diáspora e que aqui se mantêm vivos, reafirmando que “povo preto de Ouro Preto é ouro”.

Expressão do sagrado em canto, dança e tambor

​Por Sidnéa Santos*

 

“Para Ouro Preto, o ano só começa de verdade quando os tambores percorrem as ladeiras da cidade, anunciando os reinados negros e ativando uma memória ancestral que atravessa o tempo. É a lembrança de Chico Rei, dos homens e mulheres africanos e afrodescendentes que resistiram, se reorganizaram e garantiram a preservação de seus saberes por meio das irmandades leigas. Heranças de inquices, voduns e orixás que cruzaram o Atlântico e, em território brasileiro, coexistiram com o catolicismo e com as religiosidades indígenas, dando origem às festas de reinados negros, presentes em diversas regiões do país.

Em Ouro Preto, essa tradição se expressa em dois momentos centrais: o ciclo do Rosário, celebrado em outubro no distrito sede e em localidades como Miguel Burnier e Santo Antônio do Salto, e a grandiosa Festa do Reinado, realizada em janeiro, que abre o calendário cultural da cidade. Considerada a maior festa do município, a celebração foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Ouro Preto em 2019 e, em junho de 2025, os reinados negros passaram a ser reconhecidos como patrimônio cultural imaterial do povo brasileiro. Um marco que reafirma a legitimidade de modos afro-indígenas de rezar, cantar, dançar e tocar tambor como expressões do sagrado.

Reunindo guardas de diferentes regiões e nações — marujos, caboclos, catupés, congados, moçambiques, candombeiros e tamborzeiros —, a Festa do Reinado é expressão de diversidade, fé e resistência.

 

Em Santa Efigênia, entendida como pequena África de Ouro Preto e grande quilombo banto mineiro, a celebração evidencia a coexistência entre o catolicismo e as religiões de matriz africana. De 4 a 11 de janeiro de 2026, a cidade se enche de cores, cantos, ritos, sabores e partilhas, convidando moradores e visitantes a compreender que a fé não deve ser tolerada, mas respeitada. Uma festa que reconecta ancestrais, celebra a natureza, reafirma identidades e proclama: povo preto de Ouro Preto é ouro”. 

Foto: Peterson Bruschi - Ascom PMOP

* Sidnéa Francisca dos Santos, NêgaSid, mulher preta da periferia de Ouro Preto, é atriz e historiadora, doutoranda em História pela UFOP, mestre em História pela mesma instituição e pós-graduada em Cultura e Arte Barroca pela UFOP. Atua como pesquisadora da cultura afro-brasileira e africana. É sócia-fundadora da Comissão Ouropretana de Folclore, da AMIREI – Associação Amigos do Reinado e do Coletivo OuTro Preto/Mina Du Veloso. Integra o NEABI/UFOP e é dançante do Grupo de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia do Alto da Cruz. Também atua como brigadista voluntária da Brigada 1 – Núcleo Ouro Preto.

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