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Especial
Ouro Preto celebra o Mês das Mulheres com “Um Encontro com Chiquinha Gonzaga”

Revista Mundaréu, 7 de março de 2026

Espetáculo na Casa da Ópera de Ouro Preto destaca a trajetória de Chiquinha Gonzaga e dialoga com a história do teatro, um dos primeiros do país a abrir espaço para mulheres em cena.

O mês de março é um momento para lembrar e valorizar mulheres que marcaram a história do Brasil. Em Ouro Preto, essa homenagem ganha forma no espetáculo “Um Encontro com Chiquinha Gonzaga”, que será apresentado no dia 28 de março, na Casa da Ópera de Ouro Preto. A apresentação convida o público a conhecer melhor a vida e a obra da compositora, que enfrentou preconceitos de sua época e abriu caminhos para a presença das mulheres na música brasileira.

Com a soprano Georgia Szpilman e a pianista Maria Luisa Lundberg, a apresentação combina música e conversa com a plateia, reunindo relatos sobre a vida e a obra da compositora, o ambiente político e social de sua época e episódios que revelam suas ousadias e conquistas. O repertório inclui títulos como “Abre-Alas”, “Lua Branca”, “Corta Jaca” e “Atraente”, entre outras peças marcantes. Ingressos no Sympla.

Um teatro pioneiro na presença feminina

 

A escolha do teatro para esta celebração não é casual. Inaugurada em 1770, a Casa da Ópera completará 256 anos em 2026 e permanece como o teatro mais antigo em funcionamento das Américas. Ao longo de mais de dois séculos e meio, seu palco acompanhou transformações da vida cultural do país e também guardou histórias de coragem.

Ainda no século XVIII, quando mulheres quase não podiam subir aos palcos, o teatro de Vila Rica já recebia atrizes em cena, rompendo costumes da época. Há registros históricos que indicam inclusive a presença de atrizes negras no palco, algo raro para aquele período, um gesto que representava uma mudança significativa no ambiente cultural colonial.

Essa história de abertura se aproxima da trajetória de Chiquinha Gonzaga. Pianista, compositora e regente, ela se tornou uma das figuras mais marcantes da música brasileira ao desafiar limites impostos às mulheres no século XIX. Foi pioneira ao reger orquestras e ao construir uma carreira profissional na música popular, em um tempo em que poucas mulheres conseguiam ocupar esse espaço. Sua atuação também se estendeu à defesa dos criadores. Chiquinha participou da fundação da SBAT, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, entidade criada para garantir que compositores e autores recebessem pela execução de suas obras, o que nem sempre acontecia naquele período. Sua mobilização ajudou a fortalecer a proteção aos artistas no Brasil.

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Casa da Ópera de Ouro Preto, o teatro mais antigo em funcionamento das Américas, que já no século XVIII recebia atrizes em cena, rompendo costumes do período colonial. Foto: Ane Souz (site da PMOP)

A passagem de Chiquinha por Ouro Preto

A relação da compositora com Ouro Preto aparece em registros históricos. Documentos da imprensa do século XIX indicam que Chiquinha Gonzaga esteve na cidade em 1895, quando Ouro Preto ainda era a capital de Minas Gerais.

Nos arquivos do jornal Minas Gerais e da Biblioteca Nacional, a Revista Mundaréu identificou anúncios de um concerto realizado em 21 de junho de 1895, apresentado como uma “Festa Artística da compositora brazileira Francisca Gonzaga”. O evento ocorreu no chamado Salão do Congresso, grande salão do edifício que abrigava o Congresso Legislativo Mineiro, no prédio da antiga Assembleia Provincial, hoje sede da Escola de Farmácia de Ouro (UFOP).

O programa indicava participação direta da compositora. Algumas peças apareciam com menções como “regida pela autora Francisca Gonzaga” ou “acompanhado ao piano por Francisca Gonzaga”, o que sugere sua atuação como pianista e regente durante a apresentação.

Entre as obras executadas estavam composições próprias, como “Yara” e “Angelitude”, além de arranjos e peças interpretadas por orquestra e banda sob sua regência. Uma serenata intitulada “O Bandolin” foi dedicada aos acadêmicos de Ouro Preto, gesto que revela o diálogo da artista com o ambiente cultural da antiga capital mineira.

Embora o registro esteja baseado em anúncios publicados na imprensa, a atribuição de regência e acompanhamento à compositora indica que ela deveria estar presente na cidade naquele momento, participando da vida cultural local.

Um palco histórico para celebrar mulheres

Mais de um século depois dessa possível passagem por Ouro Preto, a obra de Chiquinha Gonzaga retorna simbolicamente à cidade. No palco da Casa da Ópera, o espetáculo “Um Encontro com Chiquinha Gonzaga” reúne músicas, histórias e episódios de sua trajetória, aproximando o público da artista e de seu tempo.

No mês em que se celebram as conquistas das mulheres, a apresentação de Georgia Szpilman (voz) e Maria Luisa Lundberg (piano) também evoca a trajetória de resistência e afirmação feminina ao longo da história, em um teatro que, desde o século XVIII, abriu espaço para a presença feminina em cena.

Segundo Georgia Szpilman, a mulher no século XIX, quando viveu Chiquinha Gonzaga, "tinha uma vida muito restrita, quase confinada ao espaço doméstico e à igreja. Chiquinha não se adaptou a esse modelo: era inquieta e enfrentou essas normas para construir seu caminho na música, em um ambiente dominado por homens. Hoje as mulheres avançaram muito, mas ainda enfrentam preconceitos e desigualdades. Por isso, sua trajetória continua inspiradora, mostrando que é possível abrir caminhos com coragem e determinação.”

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