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  • Revista Mundaréu

    Vila Galé Ouro Preto recupera vitrais do mestre italiano Gianfranco Cerri Vitralistas renomados restauram obra de Gianfranco Cerri para o Vila Galé Ouro Preto Texto e fotos: Victor Stutz Revista Mundaréu, 28 março 2025 O Vila Galé Ouro Preto , que será inaugurado em maio de 2025, recuperou antigos vitrais do mestre italiano Gianfranco Cerri. São três painéis que retratam a Santa Ceia, obra encomendada pela Congregação Salesiana em 1974, quando o edifício que hoje abriga a nova unidade da rede portuguesa de hotéis, a primeira em Minas Gerais, sediava o renomado Colégio Dom Bosco. Para preservar essas peças, a administração do Vila Galé trouxe a Ouro Preto três conceituados vitralistas: Fernando Felicíssimo e a dupla Mônica Fonseca e Ruy Garcia, do Galpão Arte Mosaico, espaço dedicado à execução de projetos em mosaico e vitrais. Os trabalhos de revitalização da obra de Gianfranco começaram no domingo, 13 de março, e foram concluídos nesta sexta-feira, 28 de março. Segundo Mônica Fonseca, os painéis estavam empilhados, muito danificados e cobertos por uma camada de 51 anos de sujeira. Fernando explica como foi o processo: “Depois de limpos, colamos uma chapa de policarbonato de 6 milímetros na parte de trás dos vitrais. Feito isso , cuidamos de acertar algumas regiões mais afetadas com resina de poliéster e, em seguida, aplicamos sobre os vitrais uma camada de resina epóxi, para embutir e perpetuar a linda obra.”, detalha o vitralista. Fernando, que atuou como aprendiz de Gianfranco em 1975, explica que os vitrais foram produzidos com uma técnica exclusiva desenvolvida pelo próprio mestre italiano: “Nos vitrais que recuperamos no Vila Galé Ouro Preto, Franco usou um método próprio, cortou pequenos pedaços de um metal especial, dobrando-os com alicate e colando-os até formar o desenho completo. Era um processo extremamente artesanal, e os detalhes foram muito bem elaborados.” Ainda como aprendiz, em 1977, Fernando Felicíssimo acompanhou Cerri na fase final de seus trabalhos no Santuário Dom Bosco, um projeto modernista do arquiteto Carlos Alberto Naves. Considerado uma das Sete Maravilhas do Patrimônio Cultural de Brasília, o monumento abriga diversas obras do mestre italiano, incluindo as portas em bronze, o painel da pia batismal e a pintura em acrílico no sacrário. As portas do santuário, fundidas em bronze e representando cenas da vida de Dom Bosco, possuem 40 cm de largura e levaram 10 anos para serem concluídas. Na época, Fernando contribuiu especialmente para a colocação do sacrário. Ruy Garcia, Mônica Fonseca, do Galpão Arte Mosaico; Eduardo Silva, gerente-geral do Vila Galé Ouro Preto; e Fernando Felicíssimo, mestre vitralista que, hoje, mantém seu ateliê em Santa Cruz, ES Eduardo Silva, gerente-geral do Vila Galé Ouro Preto , comentou sobre a situação dos vitrais antes e depois da intervenção: “Os painéis estavam muito degradados e tivemos dificuldade até de transportá-los. Mas, graças ao trabalho dos especialistas, estão agora em excelente estado. Nosso objetivo é preservar o patrimônio que já existia no edifício, e vários elementos históricos presentes no imóvel estão sendo recuperados.” O Vila Galé Ouro Preto é a primeira unidade da rede em Minas Gerais e segue o conceito da marca Vila Galé Collection, que oferece hotéis exclusivos e sofisticados, instalados em locais de grande valor cultural e paisagístico, com ambientação temática. Segundo o gerente-geral Eduardo Silva, a edificação passou por um minucioso processo de restauração para aliar conforto moderno ao charme de sua história. A decoração contará com painéis alusivos à região, pedras preciosas e referências a personalidades históricas. O projeto inclui ainda a criação de dois memoriais em homenagem às instituições que ocuparam o prédio: o Regimento Regular de Cavalaria de Minas (1775), berço da Polícia Militar de Minas Gerais, e o Colégio Dom Bosco, da Congregação Salesiana. Para este último, está sendo produzido um vitral especial, criado por Fernando Felicíssimo em parceria com Mônica Fonseca e Ruy Garcia, do Galpão Arte Mosaico. Gianfranco Cerri - Nasceu em Pisa, Itália, 1928. Muralista, ceramista, pintor, fotógrafo e restaurador, iniciou sua trajetória no ateliê do pai, trabalhando com fotografia, cinema e restauração. Estabeleceu-se em Belo Horizonte em 1951, onde recebeu o Prêmio Medalha de Ouro em Fotografia. Executou murais e restaurações em importantes espaços, como a Via Sacra da Basílica de São José, em Barbacena, e a Catedral de Juiz de Fora. Restaurou painéis de Portinari na Igreja São Francisco e no PIC, em Belo Horizonte. Criou murais para o Mineirão, a Capela da Fundação Israel Pinheiro e a UFMG. Expôs suas obras em diversas galerias, consolidando sua relevância artística. Faleceu em 2008, e Belo Horizonte, MG. Sobre a Rede Vila Galé O primeiro hotel do Vila Galé foi inaugurado em 1988, na praia da Galé, no Algarve, Portugal. Com o sucesso dessa unidade, o grupo expandiu-se, abrindo outros quatro hotéis, e, no início dos anos 2000, atravessou o oceano para o Brasil, com a abertura de uma unidade em Fortaleza. No mesmo período, o grupo lançou um novo segmento de hotelaria em Portugal, com o Vila Galé Alentejo Vineyards & Olive, em Beja, que marcou sua entrada na produção de vinhos e azeites por meio da marca Santa Vitória, que comercializa produtos típicos do Alentejo desde 2002. Entre 2002 e 2020, inaugurou outras 19 unidades em três países: 12 unidades em Portugal, 6 no Brasil e 1 em Cuba. Em 2024, o grupo chegou à Espanha com a abertura do Vila Galé Isla Canela, em Huelva, e, no mesmo ano, em Portugal, lançou o Vila Galé Collection Figueira da Foz, um hotel de luxo instalado em um edifício histórico à beira-mar. Em vias de completar 40 anos, em 2026, o Vila Galé é considerado o segundo maior grupo hoteleiro português. Ao todo, são 45 unidades espalhadas pelo mundo: 32 em Portugal, 11 no Brasil, uma em Cuba e outra na Espanha. Com a recente inauguração de mais uma unidade no Brasil, a primeira em Minas Gerais, em Ouro Preto, o Vila Galé passa a administrar, ao todo, cerca de 10 mil quartos, 25 mil camas e mais de 5 mil funcionários. Ruy, Fernando, Mônica e Victor (Revista Mundaréu) em frente à portada do Vila Galé Collection Ouro Preto, escultura atribuída a Antônio Francisco Liboa, o Aleijadinho

  • Ouro Preto | Revista Mundaréu

    OURO PRETO RESTAURA TEMPLO COM OBRAS DE ALEIJADINHO E ATAÍDE Até pouquíssimo tempo atrás, o destino da igreja histórica, construída entre 1771 e 1793 em honra ao Bom Jesus de Matosinho e São Miguel e Almas, em Ouro Preto, parecia incerto. Este magnífico templo, que ostenta em sua fachada uma escultura atribuída a Antônio Francisco Lisboa e, no interior, pinturas de Manuel da Costa Ataíde, foi interditado às pressas em 2014 para evitar uma tragédia. De lá para cá, foi preciso improvisar um escoramento em sua portada, onde a escultura em pedra-sabão atribuída ao Mestre Aleijadinho agonizava, trincada. No adro da igreja, outro escoramento manteve de pé outro monumento, um chafariz esculpido em pedra do Itacolomi com uma inscrição com a data de sua construção: 1763. A mobilização Mesmo com os recursos para a restauração aprovados pelo governo federal, várias questões impediram por dez anos o início das obras e, com a demora, a verba liberada quase se perdeu. A situação só começou a mudar recentemente, graças à união de esforços da comunidade em conjunto com a Prefeitura de Ouro Preto e entidades de preservação do patrimônio histórico. Essa mobilização resultou, em julho deste ano, no início do das obras na Igreja. Felizmente, ainda em tempo, pois os problemas estruturais da edificação surpreenderam até a própria equipe de restauradores, pois não apenas a fachada, mas toda a estrutura corria risco de desabar a qualquer momento. A Revista Mundaréu registrou o início das obras na Igreja do Bom Je sus (setembro 2024) . Confira as imagens: Foto: Revista Mundaréu - Setembro 2024 Foto: Revista Mundaréu - Setembro 2024 Chafariz escorado Foto: Revista Mundaréu - Setembro 2024 Foto: Revista Mundaréu - Setembro 2024 1/9 Poucos meses atrás, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) firmou um Termo de Compromisso com a Prefeitura de Ouro Preto para o restauro, que faz parte do “Novo Programa de Aceleração do Crescimento”. Inicialmente, serão investidos, cerca de R$ 4 milhões em obras estruturais para garantir a integridade do monumento: reforma do telhado, reforço da estrutura da edificação, esquadrias, alvenarias, sistema de drenagem, pisos, forros, estrutura do muro frontal e do muro lateral. Um projeto de contensão da encosta localizada no entorno do monumento e a recuperação do chafariz e do adro são intervenções que também deverão ser executadas, posteriormente. No projeto, o portão principal, que chegou a ser alterado para atender as demandas de um colégio que funciona ao lado, retornará ao seu local origem, ou seja, em frente à Igreja. Por fim, depois das obras estruturais, Por fim, após as intervenções necessárias para garantir a estabilidade física da estrutura, será feita a recuperação dos elementos artísticos: esculturas, pinturas, ornamentos e todos os elementos de valor histórico e artístico. A previsão de conclusão das obras na Igreja do Bom Jesus é de cinco anos, ou seja, em 2030. O incidente que quase levou o pároco ao encontro com o Criador Delcia Maria do Carmo Soares, conhecida por todos como Dona Dó, tem 93 anos e frequenta a igreja do Bom Jesus desde criança. Ela estava presente quando ocorreu o primeiro sinal de um possível desabamento: “Um dia o padre estava celebrando a missa e ele gostava de conversar com o povo. Ele desceu para o meio da igreja para conversar com o pessoal e, nessa hora, caiu uma telha de uma altura danada que passou raspando nele, assim. O padre Marcelo, que também estava lá, falou - não pode não, gente, não pode, quase que nós perdemos o padre aqui! E mandou fechar a igreja.” Dona Dó participou ativamente da luta para salvar a igreja e contou pra gente os combinados da comunidade com as autoridades sobre os trabalhos de restauração. “A gente pediu pessoas de Ouro Preto trabalhando, porque não adianta trazer gente de fora, que não sabe nada da igreja, só para colocar dinheiro no bolso e depois ir embora. Isso nós conseguimos, na hora, veio até uma filha do doutor Celso, morador do Rosário. E eles até falaram que estavam felizes de estarem ali e que dariam o sangue pra fazer o serviço.” Dona Dó já antecipou até os planos para a primeira Festa do Bom Jesus depois da reinauguração: “ Na festa, quando a igreja voltar a funcionar, vai ter pastel, vai ter caldo, vai ter qualquer tipo de salgado. As barraquinhas, nós vamos fazer uma para os escoteiros, outra para o pessoal do catecismo, pra todo mundo que quiser ajudar! Ah, eu ainda quero receber a benção do Senhor Bom Jesus lá dentro, na Igreja restaurada.” AGRADECIMENTOS: SARA SOARES Clique para fazer um PASSEIO NAS CABEÇAS

  • Revista Mundaréu

    Um sonhador imortal: Márcio Borges na Academia Mineira de Letras ENTREVISTA EXCLUSIVA Cristiano Quintino lança livro que revela as origens do Clube da Esquina CINEMA NACIONAL “Nada”, o primeiro longa de Adriano Guimarães, protagonizado por Bel Kowarick e pela mineira Denise Stutz ESPECIAL Clube da Esquina pode virar Patrimônio Imaterial com apoio conjunto de IEPHA e IPHAN

  • Ouro Preto | Revista Mundaréu

    Festa de São Gonçalo e Cavalhadas Amarantina, Ouro Preto, MG A comunidade de Amarantina, distrito de Ouro Preto localizado a 30 km da sede, realiza em setembro uma tradição centenária em honra ao padroeiro do lugar. Na "Festa de São Gonçalo e Cavalhadas", os participantes encenam a luta entre o exército de Carlos Magno, representado pela cor azul, e o exército do Sultão de Constantinopla, representado pela cor vermelha. A disputa só termina quando a princesa Floripes, filha única do rei mouro, após ser raptada em seu castelo por um soldado cristão, para salvar seu povo da guerra, se converte ao cristianismo e convence seu pai a fazer o mesmo. Organizada pelos festeiros locais e pela "Associação dos Cavaleiros Mestre Nico de São Gonçalo", a festa é considerada patrimônio cultural e imaterial de Ouro Preto desde 2011. Amarantina é um distrito de Ouro Preto, situado às margens do Rio Maracujá. Acredita-se que o povoado tenha surgido em meados do século XVIII e seu território, antigamente, envolvia também a região onde hoje está localizado o distrito de Cachoeira do Campo. Recebeu o nome de Tijuco e, mais tarde, com a chegada de uma imagem sacra trazida de Amarante, Portugal, passou a ser chamado de São Gonçalo do Tijuco, ou São Gonçalo do Amarante. Na década de 1940, o nome foi mudado para Amarantina. A localidade tem como principais atrativos a Igreja Matriz de São Gonçalo e a Casa de Pedra, ou Casa Bandeirista, uma construção que, em razão de seu estilo arquitetônico, é atribuída aos primeiros bandeirantes que chegaram na região. Hoje a casa abriga um Centro de Memória com registros históricos do distrito. Fotos de Ane Souz

  • Revista Mundaréu

    Marcelo Xavier, o folião das artes e da inclusão Marcelo Xavier e o Carnaval de Ouro Preto O carnaval de Ouro Preto já foi representado de muitos jeitos, mas poucos conseguiram captar sua essência de forma tão lúdica e poética quanto o artista visual e poeta Marcelo Xavier. Em seu livro Festas - O Folclore do Mestre André , ele moldou, com massinha, personagens dos blocos carnavalescos da cidade histórica mineira. Marcelo foi frequentador assíduo do carnaval ouro-pretano, vinha de longe para participar do BAFO – o tradicional Bloco Bandalheira Folclórica de Ouro Preto – um dos muitos que animam as ladeiras da cidade. Marcelo retratou vários blocos do Carnaval de Ouro Preto em seu Livro "Festas - o folclore de Mestre André". Feitos de massinha, cada bonequinho, com cerca de 3 a 4 centímetros, sintetiza a magia e a diversidade da grande festa ouro-pretana. Marcelo Xavier e o Todo Mundo Cabe no Mundo, o maior bloco inclusivo de todos os tempos Em 2005, Marcelo foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa dos neurônios motores. Apesar das limitações impostas pela condição, sua paixão pela folia permaneceu inabalável. Em 2011, ele idealizou e fundou o bloco Todo Mundo Cabe no Mundo , em Belo Horizonte, o maior bloco inclusivo já criado. Com a bandeira do preconceito zero, a agremiação é aberta a todos, especialmente a pessoas com deficiência e dificuldades motoras, reforçando a ideia de que o carnaval é um espaço democrático, gratuito e acessível. Em suas palavras: "Nossa ideia de carnaval sempre foi a de afirmação da festa como manifestação folclórica – a maior do país – ou seja, popular, democrática, gratuita e aberta ao livre espaço da rua em que todos os cidadãos se sintam convidados a participar. Parece-nos viver a realização de um sonho. Festa popular sem inclusão absoluta é um contrassenso. Conhecemos bem o grande inimigo do ideal de inclusão social: o preconceito. Mas sabemos da força de armas como a arte, o folclore, a alegria e o compartilhamento no combate a esse inimigo. Nosso carnaval tem essas armas, e é com elas que botamos nosso bloco na rua: Todo Mundo Cabe no Mundo – pela paz, pela diversidade e pela liberdade ." Bloco Todo Mundo Cabe no Mundo, criado por Marcelo Xavier - Desde 2011, arrasta multidões no Carnaval da Capital

  • Rota Turística Jaguara, o livro | Revista Mundaréu

    Histórias, Memórias e Mistérios: Livro sobre a Rota Turística Jaguara Patrocinado pela Ferro Puro Mineração, sob os auspícios da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o livro “Histórias, Memórias e Mistérios da Rota Turística Jaguara”, com textos de Victor Stutz e fotos de Ane Souz, será lançado em junho, na 5ª edição do FESTUR, o Festival Internacional de Turismo e Cultura de Ouro Preto. Com coordenação geral de Gilson Fernandes Antunes Martins, a edição bilíngue, que será publicada pela Editora Tuya em parceria com a Holofote Cultural, conta com a produção executiva de José Carlos Oliveira e a coordenação de produção de Ubiraney Silva. Lançamento: Junho de 2025 Confira aqui os destaques sobre o livro "Histórias, Memórias e Mistérios da Rota Turística Jaguara" na imprensa. Esta página, em constante atualização, expressa nossos agradecimentos a todos que têm apoiado o projeto. CLIQUE NAS IMAGENS PARA ACESSAR O MATERIAL DIVULGADO Itatiaia Ouro Preto (Por Antônia Velos o) Jornal Fluxo Agito Mais Sou Notícia O Liberal Inconfidentes Jornal O Espeto Radar Geral Instagram O Liberal Inconfidentes Instagram Correio de Minas Real FM Jornal Geraes Mundo dos Inconfidentes Holofote Cultural Correio de Minas Instagram

  • Revista Mundaréu

    Carnaval para Todos! OAB Minas Gerais manifesta apoio ao bloco "Todo Mundo Cabe no Mundo" A OAB Minas Gerais, por meio das Comissões de Direitos Humanos e de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, emitiu nota de irrestrito apoio e reconhecimento ao bloco "Todo Mundo Cabe no Mundo", destacando-o como exemplo de inclusão. NOTA CONJUNTA DE APOIO AO BLOCO "TODO MUNDO CABE NO MUNDO" As Comissões de Direitos Humanos e de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OAB/MG) es Comissões de Liberdade de Imprensa e Expressão e de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/Barro Preto vêm a público manifestar seu irrestrito apoio e reconhecimento ao bloco de carnaval "TODO MUNDO CABE NO MUNDO", destacando seu exemplo de promoção da inclusão de pessoas com autismo, deficiência visual e deficiência intelectual, através da implementação de métodos de acessibilidade. Neste momento em que a sociedade busca, cada vez mais, a construção de espaços de convivência inclusivos e respeitosos, o bloco "Todo Mundo Cabe no Mundo" demonstra, de forma exemplar, corajosa e revolucionária, o verdadeiro espírito do carnaval: a celebração da diversidade e a garantia do direito de todos à cultura e ao lazer. A utilização de recursos como comunicação visual adaptada, espaços sensoriais, acompanhamento especializado e outras medidas de acessibilidade evidencia o compromisso do bloco com a promoção da igualdade e o combate à discriminação, servindo de modelo a ser seguido. As Comissões signatárias reafirmam seu compromisso com a defesa dos direitos das pessoas com deficiência e a promoção da inclusão social, e parabenizam o bloco "Todo Mundo Cabe no Mundo" por sua iniciativa inovadora e inspiradora, que serve de farol para outros eventos. Convidamos a todos a prestigiar o desfile do bloco "Todo Mundo Cabe no Mundo", que acontecerá no próximo domingo, às 10h, na Avenida Brasil com Avenida Francisco Sales, em Belo Horizonte/MG. Que o exemplo do "Todo Mundo Cabe no Mundo" inspire outros eventos e iniciativas a adotarem práticas inclusivas, construindo um carnaval e uma sociedade mais justos e acessíveis para todos. Desejamos uma ótima e alegre festa a todos! Ad referendum. Dr. WAGNER DIAS FERREIRA Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG Dra. CARLA PATRÍCIA RODRIGUES Presidenta da Comissão da Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/MG DANIEL DESLANDES DE TOLEDO Presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/MG - Barro Preto VERA LIMA BOLOGNINI Membra Colaboradora e Corrodenadora de Imprensa da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/MG - Barro Preto ANDREA DÁRIO Membra Colaboradora e Corrodenadora de Artes da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/MG - Barro Preto ANA PAULA DACOTA Membra Colaboradora e Corrodenadora de Literatura da Comissão de Liberdade de Imprensa e Expressão da OAB/MG - Barro Preto

  • Revista Mundaréu

    Minas e o resgate do trem da história Fotos: Ane Souz_2024 Em Minas, trem é música, poesia e saudade. No imaginário do mineiro, trem é tudo. Por isso é tão importante preservar nossas antigas estações, monumentos sobreviventes da rede ferroviária, lugares carregados de histórias dos tempos em que os trilhos levavam alegria e prosperidade às vilas e pequenas localidades. Atenta à importância dessa tradição, a Holofote Cultural, de Itabirito, criou e agora conduz os projetos de restauração de duas estações ferroviárias valiosas. A primeira, em Engenheiro Corrêa, distrito de Ouro Preto, com patrocínio da J. Mendes e Herculano, e a segunda, no município de Moeda, com patrocínio MRS Logística. Moeda: Um Chalé de Recordações Inaugurada em 1919, a Estação de Moeda traduz em linhas e formas o espírito de sua época. Com sua arquitetura que evoca os chalés europeus e pinceladas neoclássicas, é mais que uma edificação: é uma testemunha de um passado que se faz presente. Tombada como patrimônio cultural, sua plataforma isolada, jardins e chafariz são guardiões de histórias que pulsaram em sua paisagem urbana. A restauração da estação de Moeda é um gesto que vai além da preservação. É um ato de fé na memória coletiva, um reconhecimento de que a cultura de um povo está presente nas estruturas que ergueu e nas histórias guardadas entre paredes. Para Gilson Fernandes Antunes Martins, diretor executivo da Holofote, "a preservação de edificações centenárias valoriza a história e a memória afetiva das comunidades. Esses símbolos não são apenas vestígios físicos do passado, mas representações de identidade cultural." Assinatura da ordem de serviço para início das obras de restauro da Estação Ferroviaria de Moeda, MG Engenheiro Corrêa, memórias no Jardim da História Assinatura da ordem de serviço para início das obras de restauro da Estação Ferroviaria de Engenheiro Corrêa, MG Construída em 1896, a Estação de Engenheiro Corrêa, em Ouro Preto, era chamada de Estação Sardinha, mas ganhou o nome atual em homenagem ao engenheiro Manoel Francisco Corrêa Júnior, que teve um destino triste perto dali. Ele morreu em um desastre no km 514 da ferrovia que trabalhava. Esta estação não era apenas um ponto de passagem, mas um espaço de encontros e vivências. Com um pequeno jardim, uma fonte e bancos, era frequentada por moradores locais de Amarante, Casa Branca e Bação, sendo cenário de amizades, romances e da intensa movimentação ferroviária de passageiros e cargas. Com a restauração em andamento, o projeto visa não apenas recuperar sua estrutura física, mas também resgatar seu papel histórico e cultural. A contrapartida social é o programa "Estação de Memória", que receberá semanalmente professores e alunos para vivências educativas no local, promovendo a valorização da história ferroviária mineira. Caminho de Ferro Hoje, sobre os trilhos que cortam Minas, a Maria Fumaça já não canta mais. Mas o eco distante de seu apito atravessou o tempo e ainda nos faz lembrar de um passado que não pode ser esquecido. Esses projetos, além de preservar o patrimônio ferroviário mineiro, convidam as novas gerações a se reconectarem com as histórias que nos definem. Cada tijolo restaurado e cada detalhe resgatado devolvem vida a espaços que foram palco de encontros, despedidas e mudanças. Hoje, ao visitarmos as estações silenciosas, ainda sentimos o convite para embarcar no trem da história, carregado de sentimentos que fizeram de Minas o que ela é. O famoso trenzinho ilustrado por Milton Nascimento

  • Ouro Preto | Revista Mundaréu

    Ponte do Rosário: Uma Paisagem Interrompida Em Ouro Preto, a Ponte do Rosário é uma das joias arquitetônicas do período colonial brasileiro. Ela resiste como testemunho silencioso sobre as águas do córrego do Caquende, que também lhe empresta o nome. A ponte de pedra, em arco pleno, foi construída em 1753 e teve como arrematante Antônio da Silva Herdeiro, um profissional de destaque no cenário construtivo mineiro que, segundo registros históricos, figurou em pelo menos dois momentos ao lado de Manoel Francisco Lisboa, pai do célebre Aleijadinho. Na época, o papel de um arrematante era crucial: cabia a ele a responsabilidade de assumir e executar a obra dentro dos padrões estabelecidos, desde a organização de recursos até a entrega final, um reflexo da alta confiança em suas habilidades. Situada no bairro do Rosário, na Rua Bernardo Guimarães, a Ponte do Caquende é um testemunho de muitas caminhadas e chegou a ser exaltada nos versos de Tomás Antônio Gonzaga, em Marília de Dirceu , como um marco poético do trajeto cotidiano do poeta inconfidente. O monumento, que combina utilidade e beleza, preserva em suas pedras as memórias de uma vila próspera e rica. É um dos marcos arquitetônicos que integram o conjunto que fez de Ouro Preto um patrimônio cultural. Ponte do Rosário - Óleo s/ tela de Diogenes Sodré - 1970 Porém, se Antônio da Silva pudesse retornar ao presente, certamente se entristeceria ao perceber que a paisagem romântica que um dia rodeou sua obra foi totalmente engolida por construções recentes e inexpressivas. Hoje, uma garagem na Rua Benedito Valadares obstrui a principal vista do monumento. O caixote de tijolos foi construído ao pé do conhecido Beco dos Bois e ousa sufocar o arco da ponte, que apesar de conservado, parece agonizar sobre as águas imundas do córrego. Nos últimos tempos, a passagem sob a ponte é utilizada apenas como atalho pelos moradores locais, que dependem de uma estreita passarela de concreto, bem ao lado da boca da garagem, para acessar o caminho. E ali, todos prendem a respiração por causa do cheiro insuportável, e a paisagem original também permanece sufocada e distante de novos visitantes, que perdem a oportunidade de apreciar sua história e importância. Vista da ponte interrompida por garagem grafitada, na Rua Benedito Valadares, no Rosário, no caminho que dá acesso ao "Beco dos Bois" Fundo da garagem e passarela de concreto sobre o Córrego do Caquende A Ponte do Rosário, ou Ponte do Caquende, clama por olhares que valorizem sua história e restaurem sua presença no cenário colonial. Olhares sensíveis e mãos habilidosas possam resgatá-la do esquecimento. Só assim a paisagem deslumbrante, que certamente, ao longo do tempo, inspirou muitos poetas, pintores, trovadores, namorados e seresteiros, poderá ser novamente celebrada. Vamos aguardar e torcer para que essa parte do legado que Ouro Preto carrega, escondida em uma de suas áreas mais encantadoras, seja revelada e revisitada, um dia.

  • Revista Mundaréu

    Cinema, com Leandro Andrade Sala de Cinema Leandro Andrade Cardo so Geógrafo, historiador, poeta, autor de Às Musas e às Cinzas (Penalux, 2014) e professor da rede municipal de Ouro Preto, MG. Anora: Inova, mas nem tanto Leandro Andrade , 22 março 2025 (Alerta: contém spoiler!) À primeira vista, Anora parece ser um filme ousado, inovador e até mesmo disruptivo, seja pela opção de dar o protagonismo a uma stripper e garota de programa (interpretada por Mickey Madison), seja pela narrativa intensa e caótica, fazendo uma releitura pessimista dos contos de fadas, na qual o desejo da "mocinha" de ser resgatada de uma vida de infortúnios por um príncipe encantado se revela uma ilusão com toques de tragicomédia. Aliás, trata-se de uma releitura muito parecida com a que foi feita 35 anos atrás pelo filme que lançou Julia Roberts ao estrelato: Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990). O único diferencial trazido por Anora — e aqui vai um spoiler — é a ausência de um final feliz. Em Anora, por trás desse verniz de ousadia e inovação, de um filme que se vende como tal por dar espaço a uma categoria social marginalizada, esconde-se uma obra essencialmente conservadora e retrógrada, pois nele a protagonista é retratada como uma pessoa incapaz de autonomia, que espera que seus problemas sejam resolvidos por um homem e pela instituição do casamento. Não bastasse isso, todas as interações dessa personagem com outras mulheres, além de fugazes, são marcadas pela hostilidade, não havendo o menor sinal de companheirismo e sororidade entre suas personagens femininas, mas apenas competição e conflito. Além, é claro, da hiperexploração do corpo e da sexualidade de sua protagonista, evidenciando que o diretor esconde seus fetiches por trás de suas não tão honrosas intenções. Ao final, a mensagem deixada pelo diretor é que não existe escape ou redenção para mulheres como Anora, fadadas a levar uma vida de objeto sexual até que a velhice as jogue na sarjeta OSCAR 2025: UM PASSO À FRENTE, DOIS ATRÁS Leandro Andrade, 03 março 2025 Na noite do último domingo, 02 de março, contrariando os pedidos de Fernanda Torres, os brasileiros viveram momentos de Copa do Mundo , acompanhando em casa, ou em bares, restaurantes e ruas lotados, a cerimônia do Oscar 2025. Finalmente um filme brasileiro foi premiado na categoria de Melhor Filme Internacional (que de sua criação em 1957 até 2020 era chamada de Melhor Filme Estrangeiro), 61 anos depois de o Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, ser o primeiro filme brasileiro a disputar um Oscar nesta categoria. Na ocasião, o Brasil perdeu o prêmio para o filme francês Sempre aos Domingos (Les dimanches de Ville d'Avray), dirigido por Sergei Bourguignon. Após um “jejum” de 33 anos, o Brasil seria indicado nesta categoria em outras 3 ocasiões (em 1996 com O Quatrilho; em 1998 com O que é isso Companheiro?; e em 1999 com Central do Brasil), mas perdendo em todas elas. Até que, após um novo “jejum”, dessa vez de 26 anos, um filme brasileiro fosse novamente indicado nesta categoria, em 2025. A título de comparação, a Itália é o país com o maior número de filmes premiados nesta categoria do Oscar, sendo 14 ao todo, incluindo aquele vencido por A Vida é Bela (La Vita è Bella) em 1999, no lugar de Central do Brasil; enquanto a França é o país com o maior número de filmes (37, para ser exato) indicados nesta categoria, incluindo aí o polêmico Emilia Perez, que vinha sendo a pedra no caminho do Brasil na temporada de prêmio de 2025. Dessa vez vencemos, e a tão cobiçada estatueta dourada foi parar nas mãos de Walter Salles, que décadas antes havia realizado Central do Brasil. Em 1999 e em 2025 o Brasil também fazia história no cinema com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres – mãe e filha - concorrendo ao prêmio de Melhor Atriz. No entanto, em 2025, ganhamos o prêmio de Melhor Filme Internacional, mas perdemos Melhor Atriz, como era esperado. O que ninguém esperava era que perdêssemos nessa categoria para uma concorrente em começo de carreira, com uma carreira até o momento incipiente, numa atuação que é apenas correta, nada extraordinária. A surpreendente vitória de Mickey Madison, protagonista de Anora, se deu em detrimento de concorrentes muito mais merecedoras, seja porque tiveram interpretações melhores, ou porque tinham carreiras mais relevantes. Por todos esses elementos, o prêmio de Melhor Atriz no Oscar 2025 para Mickey Madison guarda muitas semelhanças com escolha de Gwyneth Paltrow como Melhor Atriz pelo filme Shakespeare Apaixonado em no Oscar de 1999. Décadas antes, em 1951 o Oscar deu o prêmio de Melhor Atriz para até então desconhecida (e hoje esquecida) Judy Holliday pelo filme Nascida Ontem (Born Yesterday), no lugar das lendárias Glória Swanson por Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) ou Bette Davis por A Malvada (All About Eve). Curiosamente, Crepúsculo dos Deuses contava a história de uma lendária atriz do cinema mudo que havia caído no ostracismo com a velhice; enquanto A Malvada contava a história de uma veterana atriz de teatro que tinha “o tapete puxado” por uma atriz mais jovem e ambiciosa. Portando, tratam-se de filmes que, mais de 70 anos atrás, já tocavam no mesmo ponto que A Substância (The Substance). Me arrisco a dizer que a novata Mickey Madison sendo laureada no lugar de Demi Moore, acaba precisamente provando o ponto crucial levantado por este filme estrelado por Demi Moore. Quem já o assistiu, irá entender. Quem se lembra quando Jennifer Lawrence, então com 20 anos, em seu 10º filme, venceu o Oscar de Melhor Atriz em 2013 por O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook), desbancado a veterana Emmanuele Riva, indicada por Amor (Amour), 86 anos, 58 de carreira e mais de 30 filmes no currículo? Pois é... Mas, estamos em 2025 e parece que nada mudou, pois o etarismo continua dando o tom em Hollywood, a julgar pela escolha de Mickey Madison, de 25 anos, 9 filmes, em vez e Demi Morre, 62 anos de idade, 44 de carreira, mais de 50 filmes, até então favorita ao prêmio; ou mesmo Fernanda Torres, 59 anos, 42 de carreira, mas de 20 filmes no currículo. Para além do fato de ser um prêmio criado pela indústria de cinema dos Estados Unidos para (com raríssimas exceções) adular a si mesma e prestigiar “os santos de casa”, o Oscar é assim: no ano em que corrige uma injustiça, premiando finalmente um filme brasileiro, ele comete mais uma (a lista é longa), premiando Mickey Madison como Melhor Atriz. Além do merecidíssimo prêmio dado a Ainda Estou Aqui, o Oscar 2025 teve outros acertos pontuais, como o prêmio de Melhor Documentário indo para o brilhante, necessário e impactante filme Sem Chão (No Other Land), dirigido por um palestino e um israelense, que retrata as atrocidades cometidas pelo estado de Israel contra a população palestina na Cisjordânia; ou o prêmio de Melhor Animação indo para o filme Flow (Straume), da Letônia, que rejeita todas as fórmulas das animações tradicionais para criar uma obra poética e inovadora. Porém, o que dizer da ausência de Denis Villeneuve por Duna Parte 2 (Dune Part 2) entre os indicados a Melhor Diretor em 2025? Ou das 13 inexplicáveis indicações ao equivocado, estereotipado, preconceituoso e irregular Emilia Perez? Ou a ausência de filmes como o indiano Tudo o que Imaginamos com Luz (All We Imagine As Light) entre os concorrentes a Melhor Filme Internacional? Ou o prêmio de Melhor Filme indo para Anora em vez de Conclave, O Brutalista (The Brutalist) ou Reformatório Nickel (Nickel Boys)? O lema da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável por conceder anualmente os prêmios Oscar, parece ser "um passo à frente, dois atrás". Ou, parafraseando a obra-prima dos irmãos Coen, o filme No Country for Old Man - que no Brasil ganhou o título de Onde os Fracos não Tem Vez - poderíamos dizer que no Oscar “there’s no awards for old women”, ou, traduzindo com liberdade poética, “onde veteranas não tem vez”. Qualquer semelhança com os relacionamentos amorosos de Leonardo DiCaprio não é mera coincidência. AINDA ESTOU AQUI - E ME LEMBRO! Leandro Andrade , 01 março 2025 Para além do tocante drama humano vivido por Eunice e seus filhos; para além da urgência de se falar dos horrores da Ditadura Militar - de cujo retorno estivemos à beira, na intentona golpista de 8 de Janeiro de 2023 - e de se fazer justiça às suas vítimas; para além da brilhante atuação de Fernanda Torres, construída com minúcia e sutileza, merecedora se todos as láureas; o filme de Walter Salles é uma obra-prima porque se constrói sobre uma dialética de elementos opostos e complementares, profunda e precisamente delineados ao longo de todo filme. Elementos esses que, em última instância, são representados, simbolicamente, pelos personagens de Eunice e Rubens. Rubens é a ausência, a falta, a privação, que se faz presente em toda a narrativa, permeando-a qual um fantasma e que se manifesta, por exemplo, na falta do choro no rosto de Eunice, sempre contido, preso, ausente (externamente), embora presente (internamente). Essa ausência, essa falta, essa privação, são palpáveis na casa que se torna vazia de luz, de calor, de amigos, e risos, quando Rubens é levado. Mas essa ausência, essa falta, essa privação, são também o inimigo difuso contra qual Eunice luta: o esquecimento e o silenciamento que a todo tempo espreitam. Como disse Chico Buarque: "Pai, afasta de mim esse cale-se!". Eunice, representa o oposto da falta, pois é ela que permanece ali, para que sua família não desmorone, cuidando para a inocência de seus filhos não seja violentada pelo horror que os circunda. Eunice é a presença, mas é também a memória que tenta reorganizar o passado (as fotos que ela diz o tempo todo que precisa colocar em ordem, nomear, são uma metáfora desse impulso inconsciente), para que ele não desvaneça, para que ele não se repita. É a memória que é presença, pois a lembrança evita que o passado se ausente. Eunice é também a presença da consciência, a presença do "saber o que aconteceu", envolta num escuro nevoeiro de silenciamento, de censura, de opressão, que aquele período tenebroso de nossa história impôs sobre todo o país. Mesmo assim, o filme consegue transformar o silêncio em eloquência e inundar a tela com vazios que preenchem memórias - as nossas e as seus dos personagens. Esse pesadelo sombrio ganha tanto mais peso, em decorrência de contraste que é construído pelo roteiro, pela direção e pela fotografia, na medida em que ele aparece como que se chocando com a primeira parte da narrativa, tão dialeticamente oposta, com sua luminosidade, seu calor, sua vivacidade, seus risos, seus excessos, ao pesadelo que sobrevirá. É também nesta dialética entre a vida e a morte, a luz e as trevas, representados, respectivamente, pela família Paiva em contraposição à Ditadura Militar, que o filme estrutura sua narrativa. A vida que pulsa na casa (esta, também um personagem da história) antes de Rubens ser levado para nunca mais, é bruscamente interrompida pelas trevas de um regime tirânico que parece querer devorar a todos. Casa que aparece sempre cheia no começo, e depois (numa das cenas mais lindas e emblemáticas do filme) completamente vazia no final. Do mesmo modo que as trevas são a ausência de luz e a morte é ausência de vida, o regime militar que se instalou no Brasil de 1964 a 1985 significa - ao contrário do que os seus entusiastas afirmam em bordões vazios - a ausência de todos os valores sociais e familiares que merecem ser defendidos e valorizados: o respeito, a cumplicidade, o companheirismo, a amizade, a ternura, a proteção, o aconchego, a descontração, a segurança, o zelo, a alegria. Valores estes que naquela família pulsavam, até que foram subitamente podados. Leia também: GRUPO CORPO 50 ANOS

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